27 de jun de 2017

0

Para pôr fim ao debate sobre o nosso São João, por Flávio Fernandes

Nos 70 anos do hino do Nordeste – Asa Branca – nossa cultura foi apunhalada por uma visão empresarial maldosa e sem compromisso com a cultura, o que não me espanta no capitalismo que vivemos. Antes de me aprofundar no assunto, digo logo uma coisa, moro em Cuité, na Paraíba, mas o texto foge da minha querida serra, ultrapassa os limites do município e as divisas do meu estado. Não tem nada a ver com a política, mas com a forma que acharam para atrair gente e medir forças para ver quem junta mais e se torna o maior de tal região, estado ou do país.

Na terra que cantou Luiz Gonzaga, fico triste ao ver a música eletrônica “modernizando” a festa que o mesmo cantou e propagou com tanto amor. Quando não são batidas ensurdecedoras, são letras que desmoralizam a família, desqualificam as mulheres, a nossa cultura e ganham espaço nos maiores palcos. Entre elas, me desculpem, mas vou descrever um trecho, uma que narra uma traição e inicia com o amante fazendo um auto-elogio com a seguinte expressão: “Imagina se ele soubesse o que faço contigo quando faço amor”. E dispara: “Eu te faço de laranjinha, Eu chupo você todinha, E você gostou”.

Além dessa pérola, tenho que ouvir balada, swingueira, axé e até algo muito parecido com reggae dentro do “São João”. Aí você me pergunta: Você acha feio? Acho. Você é contra? Sou. Você respeita? Respeito. Não sou obrigado a concordar com tudo que vejo ou ouço, mas sou obrigado a respeitar. Cada um faz o que acha melhor. Contudo, isso nunca foi e nem será São João, pode ser qualquer outra coisa, menos São João.

São João é Luiz Gonzaga e suas canções que retratam o nosso povo, seu sofrimento, sua alegria e seus costumes. É Sivuca com Clara Nunes e a sua Feira de Mangaio, é os Três do Nordeste dizendo que É Proibido Cochilar, assim como Flávio José exaltando Mestre Osvaldo com seu Tareco e Mariola, é Matruz Com Leite, Rita de Cássia e tantos outros que fazem a trilha sonora dessa linda festa. O que não falta é música para o São João.

E as outras não prestam? Não é isso, tem seu público, seu brilho, suas qualidades, sua época, mas não é São João. Se é pra diversificar, tá errado! Quem vai para uma festa junina vai sabendo que terá forró, do jeito que quem vai para o carnaval da Bahia curtir axé e quem vai para Barretos curtir sertanejo. É o momento de exaltar nossa cultura, nossos valores, nossa história. Aí alguém diz: se não gosta, ligue um som e vá ouvir o que você quiser. Isso é uma inversão de valores.

Infelizmente, a disputa para ver quem junta mais, para mostrar que faz maior do que o outro prefeito ou até mesmo fazer fortuna, onde as festas são privatizadas, acaba tendo que colocar ritmos que fogem do verdadeiro sentido da festa para lotar o espaço. E a cultura? A cultura que se dane! Luiz Gonzaga morreu, Elba está velha – como disseram –, isso é ultrapassado, ok. Mas isso é São João. Pelo amor de Deus, todos esses ritmos são bonitos e tem públicos, mas só não me faça querer engolir isso como São João. Luiz Gonzaga deve estar se remexendo no seu túmulo com aquele barulho ensurdecedor tocado dentro da festa que o mesmo ajudou a construir com tanto carinho.

Minha tristeza e revolta não é contra o sertanejo, o funk, o reggae e tantos outros ritmos que fazem parte da variada cultura brasileira, mas em defesa do que é nosso de direito, que elevou o nosso nome, nosso povo. Aquilo que fez o Nordeste ser grande, ser destaque para os demais estados com nomes fortes da nossa cultura mundo a fora levando o nosso nome e o propagando para inúmeros países. Sei que sou criticado, mas onde chegar e os espaços que ocupar, a defesa da nossa cultura será a minha bandeira de luta.

No mais, repito, é a minha opinião e aceito o contraditório, só não posso aceitar que isso que estão fazendo seja tratado como São João. Isso é um ataque de morte a nossa cultura, estão tornando uma festa cheia de vida em uma festa zumbi, com nome, corpo e parece aquilo que se vê, mas não é, não tem espírito, tem barulho e em algum momento chega a ser assustador. Isso, que hoje chamam de São João, pode ser tudo no mundo, mas São João eu garanto que não é. Concordem se quiser, mas é a minha opinião.

Flávio Rodrigues Fernandes
Radialista e Blogueiro

Em 26 de junho de 2017

Nenhum comentário:

Postar um comentário